Mulheres na Engenharia
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Já não é de hoje que as mulheres são protagonistas nos aspectos culturais, econômicos, profissionais e de desenvolvimento do país. Mas mesmo elas atuando em maior número no mercado de trabalho, em algumas áreas, como as das engenharias, elas ainda reivindicam espaço em ambientes acadêmicos e profissionais.

Na prática, o número de mulheres em cargos de nível superior ainda é menor em relação aos homens, mesmo elas sendo maioria. O salário delas ainda é menor também, ainda mais se a mulher for negra. A latente desigualdade, fruto de um passado em que a mulher era vista como complemento do homem, fez despertar a necessidade de luta pelos direitos femininos.

Apesar do fato de muitas pessoas confundirem o feminismo com o contrário do machismo, ou que as mulheres feministas lutam contra os homens, a batalha delas é pela igualdade de gênero e oportunidades, contra o patriarcalismo, pela liberdade individual e a livre manifestação de suas ideias e de seu corpo. 

Para se ter uma ideia, em 2016 a palavra Emponderamento esteve entre as 10 mais procuradas no Dicionário Aurélio, em virtude de um despertar coletivo da sociedade diante do tema. Ele consiste, em linhas gerais, em uma consciência coletiva expressada através de ações para fortalecer as mulheres e desenvolver a equidade de gênero, tendo como principal motivação a mudança de paradigma, enfatizando que a mulher pode o que ela quiser.

Para apoiar o debate, a Assessoria de Comunicação entrevistou professoras e acadêmicas dos Cursos de Engenharia da UFN, as quais relataram os desafios profissionais enfrentados em um território ainda predominantemente masculino. Trata-se de uma contribuição para a busca comum de oportunidades, em que o gênero não deve ser o fator predominante para uma sociedade justa e igualitária.

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“Eu escolhi a profissão certa”

A acadêmica do Curso de Engenharia Ambiental e Sanitária, Letícia Andressa Richter, sempre soube que queria ajudar as pessoas com o seu trabalho, e entrou para a engenharia receosa sobre a escolha de sua profissão. Mas, logo no primeiro semestre, ela já sabia que tinha feito a escolha certa.


Atualmente no 8º semestre do curso, há um ano da formatura, Letícia explica ainda precisa explicar sua profissão, porque as pessoas confundem como a figura de um ambientalista, que trabalha aplicando multas nos locais. O engenheiro ambiental lida com assuntos relacionados ao meio ambiente, como a degradação e contaminação dos solos, tratamento de esgoto e destinação e disposição de resíduos sólidos, o lixo. Ela até fez uma breve apresentação para seus avós, que estavam tendo dificuldades em compreender a sua escolha.

Letícia também está cursando uma segunda graduação, em Agronomia, e pretende unir as duas áreas de conhecimento para futuramente trabalhar em uma maneira de produzir alimentos mais correta, que não danifique tanto o solo. Para ela, as mulheres estão conquistando o seu espaço em todas as áreas, deixando para trás o predomínio masculino. “Não existe mais aquela história de que a gente não pode, e hoje, cada vez mais a gente vê que as mulheres querem crescer, mostrar que podem fazer tudo aquilo que o homem faz e até mais. É um período de provação e teste, e temos que nos impor, mostrar postura, sermos firmes”.

O Curso de Engenharia Ambiental é um dos que mais recebe alunas mulheres, em relação as demais engenharias. Letícia estagiou em uma empresa de consultoria ambiental, e destaca que entre os funcionários e estagiários da empresa a maioria eram mulheres.




“A capacidade intelectual do profissional é o determinante”

Formada em Engenharia Civil, a professora Juliane dos Santos Pinto, sempre gostou da parte da engenharia que envolve projeto, criação, desenho, a construção e desconstrução de algo. Hoje com 16 anos de profissão, ela reconhece que a presença das mulheres nos cursos é significativa, tendo em vista que a sua área de atuação tem como desafio a concorrência masculina, já que grande parte do trabalho está diretamente ligado a obras de construção e trabalho pesado.

Juliane estagiou durante três anos em uma obra de construção civil, e ao final da faculdade a professora foi para obras em estrada, em um estágio oferecido pelo DAER. Ela considera haver uma grande aceitação em termos de mulheres dentro das obras, mesmo ainda sendo um ambiente predominante masculino.

Saindo da graduação, já empregada em uma das empresas em que atuou, a docente se considera com sorte, pois sempre procurou se mostrar íntegra e firme, e por consequência, sempre se sentiu respeitada.

“Não adianta escolher uma profissão mais feminina, se o que eu quero é a engenharia. Falo sempre para as alunas terem força, porque você tem que ser feliz. Quando criança eu preferia brincar de caminhão com caçamba e terra, montar de desmontar. Sempre fui “diferente”, mas meu sonho me trouxe até aqui”, acredita a professora, mãe de uma menina de 11 anos.

A docente observa que apesar de suas boas experiências na área da construção civil, ela acredita que ainda exista uma certa dificuldade do homem lidar com a mulher. Muitas vezes, a engenheira fica encarregada de gerenciar a obra, tendo que lidar com o mestre de obra e os pedreiros, às vezes mais de 20 homens, e uma única mulher.

Juliane ressalta que nesses casos, além de tudo o que foi trabalhado durante a graduação, é preciso estar aberto para aprender com aqueles que carregam experiência de vida prática.

E a soma dessas ações, junto com uma boa postura, resulta em respeito mútuo, e consequentemente, um bom ambiente de trabalho.

Dentro da Engenharia Ambiental, a professora trabalha com a parte de solos, sistemas de esgoto e drenagem urbana, além de toda a parte de projeto e desenhos. Em sala de aula, ela busca relatar suas experiências sempre que pretende incentivar suas alunas, pois para Juliane, o mercado de trabalho e concursos estão absorvendo ambos os gêneros, a decisão depende da capacidade intelectual do profissional.

Outra particularidade dos cursos de engenharia da UFN são as bancas de estágio que acontecem no final do semestre, onde há um momento de feedback entre empresa, acadêmico e instituição de ensino. Na ocasião, um representante da empresa vem até a Universidade para falar sobre o desempenho do estagiário, e a professora Juliane se sente orgulhosa por ver que as suas alunas estão profissionalmente sendo bem-sucedidas, sendo recebidas dentro das empresas, deixando de lado a questão de gênero.




A cada minuto que passa as mulheres quebram mais barreiras. Seja na política, no esporte, dentro e fora de casa, e até mesmo atuando em áreas consideradas até então, dominadas por homens, como é o caso das engenheiras. A acadêmica Marília Schefer Roveda, que está no 6° semestre do Curso de Engenharia de Materiais da UFN, revela que seu maior desejo é poder trabalhar em um local onde ela seja conhecida e respeitada, e que não receba nenhum tipo de tratamento diferenciado por ser mulher.

Para ela, ninguém é melhor do que ninguém, todos possuem falhas, e o que difere uma pessoa da outra são suas escolhas, e a maneira como se trata ao próximo. A acadêmica Marília escolheu a profissão de engenheira por ser apaixonada por Fórmula 1, mas durante sua graduação em engenharia mecânica, percebeu que não era apenas o motor que constituía um carro.

“Essa mudança não foi uma desistência, e sim, uma melhora. Quando cheguei na UFN me senti um pouco assustada, e fiquei chocada com o tratamento que recebi. O coordenador do curso foi receptivo, atencioso e disposto comigo, assim como os professores, e eu estranhei muito, pois parecia que eu tinha vindo de uma caverna. Na UFN posso dizer que existe respeito, companheirismo e coleguismo”, ressaltou.

Marília ainda destaca que durante suas atividades no curso de engenharia, não percebe discursos machistas ou que menosprezam a capacidade da mulher.

“Somos incentivadas a sermos cada vez melhores, já que temos como dom natural o detalhamento e a percepção aguçada, e acredito que são essas as características que vão me destacar no mercado de trabalho, além das minhas capacidades e dedicação”.

Entre seus sonhos e esperanças, Marília almeja um ambiente de atuação e um mercado de trabalho que abrace cada vez mais a Engenharia de Materiais– que ainda é um curso novo, e entenda a sua importância, para que haja uma maior valorização do engenheiro de materiais, pois para a acadêmica, o curso e a profissão são tão abrangentes quanto às engenharias mais tradicionais, e tão necessários quanto.




“É uma questão de competência”

A única professora mulher do curso de Engenharia Química, e coordenadora da Engenharia de Materiais desde este semestre, Joana Lourenço, é esperançosa quanto ao futuro, e almeja por uma realidade em que as questões de gênero não mais existam.

“Acredito que tudo que eu e minhas colegas engenheiras conquistamos foi por nossa competência, de tu trabalhar bem, ter foco, construir um bom currículo, ter também uma boa relação com o aluno”, desabafa.

Filha de mãe matemática, Joana sempre gostou muito de cálculo, e por influência de um tio engenheiro, cresceu admirando a profissão, e por tudo que ela trouxe para a vida dele. Ela percebeu, ainda no ensino médio, que a engenharia proporciona muitas possibilidades de fazer e empreender, foi então que ela uniu suas paixões, as exatas e a prática, e formou-se em Engenharia Química.

Ela lembra que, em uma turma com mais de 25 homens, haviam apenas 5 mulheres, mas apesar da diferença, existia muito respeito. Logo após o mestrado Joana recebeu a oferta de atuar como docente, e descobriu como iria praticar a sua profissão: ensinando.

Docente há 4 anos na Universidade Franciscana, ela revela que apesar das indústrias ainda serem consideradas um ambiente mais masculinizado, devido a necessidade de mão de obra e trabalho pesado, as mulheres estão conquistando cada vez mais o poder de se fazerem presentes nesses espaços.

Joana também ressalta que em áreas como a indústria de alimentos e cosméticos, em contrapartida, existe uma maior participação feminina, e atribui essa característica ao perfil mais sensível da mulher.

Na Universidade Franciscana são ofertados quatro cursos de engenharia, sendo que a Engenharia Química, coordenada pelo professor Germano Possani, destaca-se como a turma com o maior número de mulheres dentro da Instituição. E também a Engenharia Ambiental e Sanitária, coordenada pela professora Noeli Julia Schüssler de Vasconcellos.

Apesar das diferenças em sala de aula, Joana revela que a relação das turmas é tranquila e harmônica. “Os homens costumam ser um pouco mais engraçados e extrovertidos, enquanto as mulheres são um pouco mais sérias, características que equilibram o ambiente”, pondera a professora.

Ela destaca que nesses espaços não há diferenciação de gênero. “Eu sempre falo aos meus alunos que estou trabalhando eles para o mercado de trabalho, porque no ambiente de estudos nós temos o mesmo carinho e cuidado com todos, independentemente dessa questão, nós lidamos com o aluno”, observa Joana.




Na quarta e última história das “Mulheres nas Engenharias”, a acadêmica Vitória Farina Azzolin, que curso o décimo e último semestre do Curso de Engenharia Química da UFN, apresenta sua história. Ela lembra que ingressou na graduação visando atuar na área industrial, e ao longo do curso, participou de grupos de pesquisa e programas de iniciação científica para conhecer as diversas possibilidades de trabalho que a engenharia proporciona, como a criação de procedimentos para extrair matérias-primas da natureza e atuar na pesquisa de novas tecnologias que tragam menos impacto ao meio ambiente, além de poder supervisionar as atividades industriais.

Após quatro anos de pesquisa, Vitória voltou a pensar na área industrial, onde realiza atualmente o estágio obrigatório na empresa Eneva – Itaqui Geração de Energia, em São Luís do Maranhão. Ela conta que recebeu a oportunidade de realizar o estágio no Nordeste, com apoio de sua família, mas que acabou distanciando-se de amigos em decorrência de suas escolhas.

“As mulheres de forma geral estão percebendo, que para obterem melhores resultados, precisam estar unidas e apoiarem umas às outas”, comentou Vitória ao salientar a concorrência na área. 

Para Vitória, o estágio na usina termoelétrica lhe proporciona grandes realizações, e a oportunidade de trabalhar com pessoas que se tornaram sua segunda família, e que a incentivam a seguir trabalhando, mesmo longe de casa.

“No início tudo era um grande desafio para mim, temia que os operários mais experientes não fossem acatar ordens de uma profissional da engenharia, mulher e mais nova. Porém, agora que estou presente na prática da área industrial, vejo que há um grande respeito e incentivo para seguir atuando nesta carreira, exercendo a profissão com êxito, ética e amor”.




Resultado de muita luta por reconhecimento, todos os dias surgem novas conquistas que enchem o mercado de trabalho de esperança. Têm se tornado cada vez mais comum ver mulheres trabalhando em cargos até então não ocupados por elas, porque a sociedade as subestimava. Elas hoje fazem a segurança da população, projetam e constroem ambientes, fazem a gestão de empresas, empreendem e se tornam cada vez mais reconhecidas.

No entanto, um comportamento que ainda precisa ser extinto é a falta de incentivo para a mulher em determinadas áreas de atuação. A estudante Daniela Tiepo Gomes, diz que não foi incentiva a ser engenheira, mas escolheu o curso depois de ler uma reportagem da Revista Exame, que indicava Engenharia Biomédica entre as 10 carreiras mais promissoras até 2020.

Motivada pela oportunidade de transformação social, Daniela hoje cursa o 6º semestre de Engenharia Biomédica, e atua como voluntária do programa de iniciação científica, descobrindo-se apaixonada pela área de pesquisa.




 “Mesmo sendo uma área de atuação mais masculina, é preciso que a gente mostre que somos capazes”, declara. Quanto ao futuro, ela torce para que o curso seja bem difundido e reconhecido pelo país, mas teme pela falta de investimento, seja na área da saúde, tecnologia ou pesquisa.

Por enquanto, Daniela tem considerado seguir a carreira na pesquisa e docência, e defende. “Como mulher e engenheira eu gostaria de transmitir a importância da representatividade feminina nesse setor de atuação. Nossa visão de engenheira é para melhorar a vida das pessoas em sociedade”.

Engenharia como sentido de vida

Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, a professora do curso de Engenharia Biomédica, Leyla Kräulich, conta que depois de se tornar mãe ela sentiu que precisava voltar a estudar.

Foi então que após uma conversa com seu psicólogo, ela iniciou uma segunda graduação, em Engenharia Elétrica, para desafiar a si mesma a sair de sua zona de conforto. A professora, que tem dois tios que são engenheiros civis, ouviu que seria mais fácil se ela tentasse a engenharia química, mas como sempre achou o campo de atuação da área elétrica interessante, ela se manteve firme em sua escolha.

Em uma turma com apenas três mulheres além dela, Leyla revela ter se sentido um pouco desconfortável no início, pois em alguns momentos haviam professores mais velhos que ainda taxavam as mulheres na engenharia. Mas ela também ressalta que ao longo da graduação, e também do mestrado, essa sensação foi diminuindo, pois, os colegas e professores foram percebendo sua competência, e entenderam que na profissão não é o gênero que importa, e sim a dedicação e empenho do profissional.

Durante o mestrado, Leyla participou de um projeto de pesquisa e acabou permanecendo na área da docência. Ela deu aula no Colégio Técnico de Santa Maria, e lembra que no início, sentiu ter passado por um teste dos alunos quanto a confiabilidade de seu conhecimento, mas que essa situação foi breve, e o seu relacionamento com os alunos sempre foi bem tranquilo.

Dentro da UFN, Leyla dá aulas para a Engenharia Biomédica em disciplinas relacionadas à elétrica, e destaca o bom relacionamento entre professoras e alunas, diante do incentivo e apoio, em sala de aula, e até mesmo durante o acompanhamento dos estágios.

A docente ainda destaca que é uma preocupação constante nas reuniões entre os professores das engenharias, é a identificação de problemas que envolvam a questão da inclusão, principalmente em casos, em que, durante o estágio, as alunas encontram dificuldades para se desenvolver dentro da empresa. “Eu me lembro de quando era eu no lugar delas, buscando conquistar o meu espaço e provar que era capaz, e por isso, sempre que possível buscamos ajudar as alunas a encontrarem uma área com a qual se identifiquem, e se sintam confortáveis para atuar”.

Leyla afirma que apesar das diferenças no tratamento, ela tem percebido que nos últimos tempos muitas de suas colegas estão conquistando seus espaços em empresas e indústrias por merecimento e competência. “O mais importante de tudo é que se você mostra que vais fazer o trabalho e que tem capacidade disso, eles acabam confiando, e esquecendo dos pré-conceitos”. 

Texto: Thayane Rodrigues
Fotos: Mark Braunstein 
Edição: Assecom